Autor:
Boi a Pasto
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Fonte: Boi a Pasto |
O sistema imunológico é um dos sistemas mais importantes do organismo animal, pois compreende todos os mecanismos pelos quais o organismo animal se defende de invasores externos, como fungos, bactérias, vírus e protozoários.
Para que o organismo animal esteja realmente protegido contra estes microrganismos, é necessário que tenhamos um sistema imunológico atuando de maneira eficiente e efetiva. Devemos lembrar que o organismo animal vivo possui todos os componentes necessários para sustentar a vida (temperatura, umidade e nutrientes) e com isso, o tecido animal é extremamente atrativo para a vasta gama de microrganismos existentes. Desta forma, para que os animais vivos e saudáveis sobrevivam, é preciso que estes sejam resistentes a invasões microbianas, onde então entra em ação o sistema imunológico. Esse sistema é um complexo de mecanismos de defesa sobrepostos e interligados para que em conjunto possam ser efetivos e confiáveis na destruição ou controle de grande parte dos invasores. Embora o sistema imunológico seja complexo, a sua função e estratégia básica são simples: reconhecer o invasor inimigo, mobilizar forças e atacar.
O sistema imunológico é dividido em duas formas de atuação, sendo que o primeiro, denominada de imunidade natural ou sistema imunoinato, é a primeira que ocorre após a invasão do organismo. Esta é composta pelas barreiras físicas, onde dentre estas temos a pele e o processo de autolimpeza, que incluem tosse e fluxo de muco no trato respiratório, diarréia no trato gastrointestinal, fluxo urinário no sistema urinário e a presença da flora normal, que também elimina diversos invasores potenciais. Além das barreiras físicas, temos também os mecanismos químicos e celulares que compõem este tipo de imunidade. Dentre os mecanismos celulares que compõem este sistema, temos os macrófagos e neutrófilos, sendo que estes são leucócitos (glóbulos brancos) que fagocitam (ingerem) microrganismos, antígenos (qualquer molécula capaz de estimular uma resposta imune) e outras substâncias. O processo de fagocitose ainda compreende a digestão do microrganismo ingerido e a sua destruição.
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Fonte: Boi a Pasto |
Os macrófagos localizam-se estrategicamente onde os órgãos do corpo entram em contato com a corrente sanguínea ou com o mundo exterior, enquanto os neutrófilos encontram-se circulantes no sangue. De um modo geral, estes dois glóbulos brancos atuam em conjunto, sendo que os macrófagos iniciam a resposta imune e sinalizam para que os neutrófilos saiam da corrente sanguínea e se juntem a eles na área afetada. Com a chegada dos neutrófilos, estes destroem e digerem os invasores. Essa focalização de células de defesa é chamada de inflamação, sendo que devido a este acúmulo de neutrófilos, destruição e digestão de microrganismos levam a formação de pus. Devido a este ataque, pode haver dano tecidual local, sendo que este dano deve ser reparado por algumas destas células.
Este ataque local pode destruir a maioria dos microrganismos invasores, sendo que isso impede com que estes se espalhem a áreas não infectadas do corpo. Existem ainda, as células assassinas naturais (natural killer), que são linfócitos de maior tamanho quando comparado aos linfócitos B, e são produzidos pela medula óssea e apresentam como característica encontrarem-se prontas para destruir uma variedade de células-alvo assim que formadas. Estas células, também produzem algumas citocinas, que são substâncias mensageiras que regulam algumas das funções do linfócito T, linfócito B e macrófagos. Ainda, na imunidade inata, temos o sistema complemento, outra forma de resposta, composta por 19 proteínas, sendo que estas atuam em cascata, com uma proteína ativando a proteína seguinte. Estas proteínas podem opsonizar (facilitar o processo) o microrganismo para uma melhor fagocitose; pode recrutar e ativar várias células incluindo células polimorfonucleares (neutrófilos, eosinófilos e basófilos) e macrófagos; podem participar na regulação de respostas de anticorpos e podem auxiliar na eliminação de complexos imunológicos e células apoptóticas (células que tiveram morte programada).
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Como as proteções físicas, a inflamação e outros componentes do sistema inato não podem oferecer uma solução final para a defesa do organismo, entra em ação a segunda forma de resposta imunológica. O sistema imunoadquirido ou imunidade adquirida, como o próprio nome indica, é um sistema capaz de aprender a reconhecer os invasores quando encontrá-los novamente e possam assim, responder ainda mais rápido e efetivamente. Como se trata de uma imunidade específica a um invasor, as chances de sucesso na invasão por um organismo serão reduzidas a níveis baixos. Desta forma, este sistema fornece a defesa máxima ao organismo. Como se trata de um sistema que precisa aprender a responder frente aos invasores, esta é desenvolvida durante toda a vida do mesmo. Como a imunidade adquirida guarda o registro ou memória de cada antígeno que o animal já entrou em contato, as suas células (linfócitos), vivem durante anos ou até mesmo durante décadas. Já as células do sistema imunoinato, vivem de 7 a 10 dias.
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O sistema imunoadquirido é subdividido em dois tipos de resposta, sendo a primeira, denominada de imunidade mediada por célula, que ocorre quando os macrófagos ou neutrófilos fagocitam um antígeno e o apresentam aos linfócitos T auxiliares, sendo que estes, estimularão a produção de linfócitos B e linfócitos T citotóxicos, os quais matarão a célula infectada. Em alguns casos, o antígeno pode estimular diretamente a produção de linfócitos T citotóxicos. Os linfócitos T são formados quando as células-tronco migram da medula óssea até o timo (primeiro órgão formado por tecido linfóide que surge na vida embrionária e forma a base inicial do sistema linfático durante o crescimento do animal até atingir a puberdade), onde estes se dividem e amadurecem.
Estes então aprendem a diferenciar o que é próprio do organismo do que não é. Então, os linfócitos T maduros deixam o timo e entram no sistema linfático, onde então terão as funções acima descritas. O segundo tipo de resposta do sistema imunoadquirido é denominada imunidade humoral, ou resposta humoral. A imunidade humoral é mediada pelos linfócitos B, que são derivados de uma célula-tronco da medula óssea, que quando estimulados por um antígeno, amadurecem e se transformam em plasmócitos ou células B de memória, que são células produtoras de anticorpos. Os anticorpos também são chamados de imunoglobulinas e apresentam as seguintes funções:
• A IgM, é o anticorpo produzido após a exposição inicial a um antígeno. Um exemplo é quando um animal jovem recebe a primeira dose de uma vacina contra botulismo. Os anticorpos antibotulínicos da classe IgM serão produzidos dias mais tarde (resposta primária). Esta é abundante no sangue, mas normalmente não se encontra nos órgãos ou nos tecidos.
• A IgG, é produzida após a exposição subsequente a um antígeno, como a revacinação 30 dias após dos mesmos animais. Esse animal produzirá anticorpos da classe IgG. A resposta secundária é mais rápida e mais abundante que a resposta primária. A IgG está presente tanto no sangue como nos tecidos.
• A IgA é o anticorpo que tem a função de defender o organismo contra a invasão de microrganismos através das superfícies revestidas por mucosas, como narina, olhos, pulmões e intestinos. Esta é encontrada no sangue e em secreções como as do trato gastrointestinal, pulmonar, ocular e no leite.
• A IgE é o anticorpo que causa reações de hipersensibilidade do tipo I (também conhecida como alergia). Também são importantes no combate a infecções parasitárias, como a haemoncose, que traz tanto prejuízo aos ovinos e caprinos.
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A imunidade natural e a imunidade adquirida, não são independentes uma da outra, sendo que cada sistema atua associado ao outro e o influencia, seja diretamente ou através da indução de citocinas. Raramente um estímulo desencadeia uma resposta isolada.
Quando os animais nascem, estes já apresentam o sistema imunoinato completamente desenvolvido, mas não apresentam capacidade imune totalmente desenvolvida e desta forma, toda resposta imune de um animal recém-nascido, é uma resposta primária, com período de intervalo prolongado e baixas concentrações de anticorpos. Com isso, os animais recém-nascidos podem ser mortos por organismos que apresentam pouca ameaça a um animal adulto. Estes animais recém-nascidos são altamente vulneráveis à infecção nas primeiras semanas de vida e precisam de auxílio para a sua própria defesa neste período. Diferentemente dos humanos, cães e gatos, que recebem anticorpos das mães por via transplacentária, a placenta dos ruminantes bloqueia totalmente a passagem transplacentária dos anticorpos, e os recém-nascidos dessas espécies são totalmente dependentes dos anticorpos recebidos através do colostro. Esta transferência de imunidade passiva da mãe para o recém-nascido é essencial para a sua sobrevivência.
O colostro é bastante rico em IgG e IgA, mas também contém um pouco de IgM e IgE, anticorpos estes que apresentam funções específicas, conforme já descrito. Além disso, o colostro fornecerá outros nutrientes que serão necessários para o atendimento das exigências nutricionais dos animais recém-nascidos. Para que os animais recém-nascidos consigam absorver e aproveitar estes anticorpos contidos no colostro de suas mães, é preciso que estes ingiram o colostro o mais breve possível após o seu nascimento, sendo que o ideal é que isto ocorra até o prazo máximo de 6 horas após o nascimento, pois a partir daí, há um decréscimo das células que absorvem imunoglobulinas no intestino, com substituição por células maduras que perdem esta função. Animais que não mamaram normalmente possuirão níveis extremamente baixos de imunoglobulinas na corrente sanguínea, e consequentemente serão muito mais susceptíveis a doenças.
Para que os animais jovens e adultos possam apresentar este sistema eficiente e atuando no combate dos microrganismos patogênicos, é preciso que os animais apresentem-se em bom estado nutricional, sendo que quando estes são submetidos a estresses alimentares, bem como a dietas não completas referentes aos nutrientes necessários para o funcionamento normal do organismo, temos também o sistema imunológico afetado, e desta forma, o animal se encontrará mais susceptível a diversas doenças. Dentre os nutrientes necessários, encontram-se os minerais, sendo que devido estes não poderem ser sintetizados pelo próprio animal, é preciso que seja feito o seu fornecimento, onde o não atendimento das exigências, pode também desencadear queda na eficiência imunológica, principalmente quando pensamos em microminerais.
Os microminerais, mesmo se tratando de minerais que são exigidos pelos animais em pequenas quantidades são de grande importância para o sistema imunológico dos animais, e quando se tem níveis baixos destes na dieta dos animais, podemos ter baixa resposta imunológica. Mesmo ainda existindo dentro da caprinovinocultura um mito de que o Cobre é tóxico principalmente para os ovinos, este elemento mineral é primordial para a vida destes animais, sendo um elemento muito importante tanto para a qualidade de lã e saúde de casco, quanto para que haja um sistema imunológico eficiente.
O Cobre participa do sistema imunológico através da metaloenzima superóxido desmutase (para que se tenha esta enzima, é preciso que além do Cobre se tenha Zinco e Manganês), que transforma o íon superóxido em peróxido, radical livre que a enzima glutationa peroxidase eliminará do organismo durante o processo de fagocitose. Quando se tem uma deficiência de Cobre, isso altera os linfócitos T e B, os neutrófilos e os macrófagos, resultando na queda das células protetoras de anticorpos e consequentemente em uma queda na resposta imunológica específica e inespecífica. Com isso então, tem-se um animal com sistema imunológico debilitado e susceptível ao ataque dos microrganismos, podendo o animal vir a adoecer mais facilmente. Desta forma, é preciso que na dieta dos animais hajam níveis adequados deste elemento mineral, para que se tenha o atendimento da exigência animal e consequentemente um sistema imunológico atuante, bem como uma melhor qualidade de vida e o funcionamento normal de outros sistemas que tem dependência deste elemento.
Como acima citado, o Manganês também é necessário, uma vez que este juntamente com o Zinco e o Cobre, faz parte de metaloenzimas fundamentais para a ação normal dos neutrófilos e macrófagos.
O Cobalto também influi na resposta imunológica dos animais. Este elemento é um constituinte essencial da vitamina B12, vitamina sintetizada pela microbiota ruminal. Quando há níveis séricos baixos de vitamina B12, a resposta linfocitária às vacinas é comprometida e a capacidade dos neutrófilos responderem as infecções é menor.
O Zinco é outro elemento mineral vital para a sobrevida dos animais e integridade do sistema imunológico sendo que diversas enzimas e coenzimas são metaloproteínas ligadas ao Zinco, e estas atuam na divisão celular dos tecidos linfáticos e órgãos que compõem o sistema imunológico. Este micromineral desempenha diversas funções no sistema imunológico, tais como atuar na síntese dos hormônios do timo; estimular a atividade celular do timo; estimular a produção de células de defesa; implantar e preservar a capacidade de destruir os antígenos invasores nas células de defesa; participar do metabolismo da célula que controla o sistema citotóxico do linfócito T, que controla a resposta imunológica humoral e celular; atuar na atividade do sistema imunológico contra neoplasias e aumentar a resistência contra mastite, levando a uma redução na contagem de células somáticas no leite.
Quando existe deficiência de Zinco, a contagem de linfócitos circulantes no sangue diminui e há redução no peso do timo. Sem essa resposta imune plena há uma depressão profunda na capacidade de defesa do animal, que adoece facilmente quando é desafiado por microrganismos patogênicos. O efeito protetor das vacinações é muito prejudicado quando há deficiência nutricional, em especial o Zinco, pois para a efetiva proteção vacinal é necessária uma memória imunológica máxima por parte do linfócito T. Sem esta memória imunológica não haverá uma boa resposta imune. A vacinação contra qualquer doença possui respostas imunes ineficientes, ou mesmo insuficientes para proteção dos animais caso sejam desafiados.
O Selênio é um constituinte essencial da glutationa peroxidase, uma selenoproteína que apresenta a função de proteção antioxidante e é fundamental nos processos debilitantes e estressantes causados pelas doenças infecto-contagiosas e parasitárias. A ação da enzima glutationa peroxidase retirando radicais livres e agentes oxidantes do organismo que causam a oxidação das células, é fundamental para a sobrevivência e eficiência funcional dos tecidos.
Caso haja selenoproteínas suficientes no sangue, os radicais livres serão reduzidos e eliminados sem causar danos às células e tecidos, mantendo as condições plenas de saúde dos animais, pois os radicais livres promovem o desgaste e envelhecimento das células e com isso, inicia-se a apoptose celular, induzindo ao “suicídio celular”, diminuindo a eficiência e o tempo de vida normal das células e dos tecidos, prejudicando a saúde do animal. Esta capacidade de retirar radicais livres do corpo, e assim proteger as células dos agentes oxidantes, pelas selenoproteínas, é chamada de capacidade antioxidante, fundamental para a sobrevivência do bezerro recém-nascido, prevenção da doença do músculo branco, resistência a processos infecciosos e parasitários, além de outras funções.
A ação antioxidante efetiva das selenoproteínas é essencial para a competência imunológica das defesas do animal em resistir e vencer doenças infecto-contagiosas e parasitárias. A atividade dos macrófagos e neutrófilos está intimamente relacionada com o Selênio, pois as selenoproteínas estimulam a atividade de encontrar e destruir os invasores microbianos no organismo dos mamíferos. As selenoproteínas estruturais fornecem aminoácidos e Selênio para a síntese de glóbulos brancos pela medula óssea.
As selenoproteínas antioxidantes auxiliam no processo inflamatório, permitindo que haja a leucopedese, que é à saída de glóbulos brancos da corrente sanguínea para os tecidos, através das paredes íntegras dos vasos, sendo que isso só ocorre quando o tecido é atacado e sofre um processo inflamatório. As selenoproteínas limpam a “sujeira” que fica após o ataque dos glóbulos brancos a um patógeno microbiano. Os glóbulos brancos ingerem os microrganismos patogênicos e tentam destruí-los, liberando uma grande quantidade de O2 livre, potente radical oxidante, que é extremamente danoso às células na forma de radical livre. As enzimas que vão limpar o tecido e o sangue desses radicais livres são as selenoproteínas antioxidantes, que rapidamente neutralizam os radicais livres e evitam que o tecido e as células sejam danificadas. Essa limpeza é fundamental para que a competência imunológica seja mantida. Se houver acúmulo de radicais no tecido sobre ataque, há uma diminuição na leucopedese pelos vasos que o irrigam, e o glóbulo branco fica com sua capacidade de destruir os patógenos diminuída, ou mesmo cessa para não aumentar a quantidade de radicais livres. Se o Selênio se esgota e não há selenoproteínas suficientes, a capacidade de defesa do animal fica bem abaixo da resposta normal esperada.
Desta forma, para que tenhamos um animal sadio e altamente produtivo, é sempre muito importante que se tenha uma dieta balanceada de modo a satisfazer as necessidades nutricionais, pois somente desta forma se conseguirá bons resultados. Em relação aos minerais, devemos lembrar, que somente os minerais contidos nas pastagens ou mesmo em outras fontes de volumoso, bem como nos grãos que compõem os concentrados, não são suficientes para atender as exigências totais dos animais em relação aos minerais essenciais, e por isso é sempre importante que se faça o fornecimento de um suplemento mineral, mas sempre se atentando a utilizar produtos que sejam formulados especificamente para a espécie a ser suplementada, e até mesmo para a categoria animal em questão, sendo estas formulações devem ser de empresas idôneas, formulados com matérias primas de alta qualidade e biodisponibilidade e que apresentem níveis de minerais condizentes com o consumo dos mesmos e as necessidades dos animais.
Marco Antônio Finardi