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IEPEC
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Fonte: Bürgi Consultoria
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Atualmente a questão ambiental torna-se essencial nas discussões e nas preocupações dos Estados. O confinamento, assim como outras explorações, pode provocar muitos impactos ambientais se não for bem planejado. Por isso, o IEPEC entrevistou Ricardo Burgi, Agrônomo da Bürgi Consultoria Agropecuária, que irá falar sobre planejamento de confinamento e a legislação ambiental.
1. Quais os possíveis impactos ambientais provocados pelo confinamento?
A formação de efluentes. Como a maioria dos confinamentos é a céu aberto, quando chove parte do esterco se dissolve na água e pode ser levado pela enxurrada e por isso se deve ter uma estrutura para retenção desse efluente. Além disso, se tem também problemas com a poeira, mau cheiro e moscas que podem incomodar a vizinhança. A poeira pode alcançar aproximadamente 1 a 2 km dependendo das condições de clima e ventos. O odor ocorre em época de chuvas, pois com as chuvas o esterco e as sobras de ração podem fermentar gerando odores, sendo que no tempo seco geralmente não há mau cheiro. Por isso, é recomendado fazer a remoção do esterco, contenção de efluentes, combater a formação de poeiras e a proliferação de insetos.
2. E em relação a emissão de metano?
Esse assunto do metano liberado pelo bovino é uma grande bobagem, pois todo ser vivo emite metano. Toda matéria orgânica em fermentação no solo ou na produção de biofertilizantes, produz metano. Todos os pântanos e manguezais do mundo produzem metano. Então, o metano produzido pelo bovino é na verdade uma pequena parcela do total de metano produzido no mundo por inúmeras fontes. Eu e minha equipe estamos fazendo um levantamento para quantificar o que significa a produção de metano pelos bovinos em relação a produção mundial de metano das diversas fontes.
3. Quais estratégias os produtores podem desenvolver para reduzir estes impactos?
Se o metano produzido pelos bovinos fosse importante, como se quer fazer crer ultimamente, o confinamento na verdade acelera o ciclo de produção, reduzindo a idade de abate. Animais terminados para o abate em uma idade mais jovem consomem menos alimento ao longo de sua vida e, assim, na verdade o confinamento tem um efeito de reduzir a emissão de metano por quilo de carne produzida, ou seja, ao encurtar a vida desses animais eles irão consumir menos alimento durante sua vida e consequentemente produzirão menos metano que animais abatidos tardiamente.
Além disso, se pode reduzir a produção de metano acrescentando nas rações aditivos como os ionóforos. Do ponto de vista nutricional o metano é uma enorme perda de energia, pois a parte do alimento ingerido que da origem ao metano é energia perdida. Com o uso de ionóforos a atividade das bactérias produtoras de metano é limitada e, assim, as outras bactérias que ajudam na digestão da fibra sem produzir metano (não metanogênicas) predominam e o animal passa a digerir o alimento com maior aproveitamento energético e com menor produção de metano.
Para conter os efluentes é necessário construir uma lagoa de retenção que irá captar a enxurrada que passa pelo confinamento. Nesta lagoa de retenção a matéria orgânica decanta e pode ser retirada para posteriormente ser aplicada nas áreas agrícolas. Quando a água vai ser retornada a um córrego ou rio deve passar por um procedimento padrão com três lagoas, mas geralmente é feita apenas uma lagoa para reter apenas a água da chuva que cai sobre o confinamento e na lagoa essa água lentamente evapora, infiltra no solo e posteriormente é retirado o material que fica decantado, na forma sólida.
Para confinar é necessário produzir uma forragem, uma silagem de milho ou de sorgo ou de capim e essa produção envolve a subtração de uma grande quantidade de nutrientes do solo e o retorno do esterco do confinamento para as áreas agrícolas onde se produz a forragem utilizada no confinamento resulta em reciclagem de nutrientes, além de ser um fator de economia. O esterco agrega matéria orgânica ao solo resultando em uma maior capacidade de retenção de água e nutrientes, além de reciclar o nitrogênio e minerais. O retorno do potássio ao solo pode chegar a 70%, o retorno do fósforo pode ser maior que 100%, por que uma boa parte do fósforo da dieta do bovino não provém da forragem e sim do suplemento mineral. Levar esterco para a área de produção de forragem enriquece o solo com fósforo, o que é muito bom principalmente por que nosso solo é muito pobre em fósforo.
Para evitar a poeira hoje se adota o sistema de aspersão de água. A eliminação das moscas é feita através do manejo adequado do esterco. O esterco deve ser amontoado, pois a larva da mosca se desenvolve no esterco, mas ela precisa descer ao solo para se transformar em pupa. Quando a espessura do amontoado de esterco é superior a 70 cm, a larva não consegue chegar ao solo e morre no caminho. Geralmente se faz amontoados de 2 até 3 m de altura, sendo esses uma armadilha de moscas.
4. Existe uma legislação ambiental federal que produtores devem obedecer ao implantar um confinamento?
Existe o código ambiental brasileiro que é de 1965, o qual visa a preservação dos mananciais, da água, das áreas de preservação permanente, das matas ciliares, o uso de águas servidas nas atividades agroindustriais, mas é um código antigo que está passando agora por uma revisão e daqui um ano, talvez, se tenha um código novo. Além disso, cada Estado tem sua legislação específica, geralmente com normas definidas mais recentemente, já na década de 90 e início deste século.
Nem todo Estado pede licença para implantação de confinamento, alguns Estados são mais rigorosos e outros menos. Os Estados de Goiás e Mato Grosso são os que exigem maior distância das instalações à área de preservação permanente (APP), são os Estados que possuem legislação mais rígida.
5. Qual órgão é responsável por verificar o enquadramento das propriedades na legislação?
Seria o IBAMA, mas está delegado para as Secretarias Estaduais do Meio Ambiente. Em minha opinião esses órgãos fiscalizadores deveriam se colocar a disposição dos produtores para orientar os projetos de implantação de confinamento, mas infelizmente o que acontece é que a área ambiental mantém hoje um comportamento de polícia, só vão às propriedades quando acham que tem irregularidade para multar. Deveriam ter uma função mais educativa que punitiva. Isto porque os produtores precisam de orientação, não querem estragar suas aguadas, causar erosão, contaminar as águas. Em resumo, os órgãos ambientais deveriam ter uma atuação mais educativa que punitiva.
6. Em relação ao consumo de água do confinamento - precisa de licença para consumo de água?
Dentro da nossa área de atuação o único estado que pede licenciamento de uso de água para os animais beberem é o Paraná. Para uso de água na irrigação todos os Estados pedem licenciamento.
7. Há normas que estipulam onde deve ser e onde não pode ser o local do confinamento e de tratamento de resíduos?
Sim, e essas normas estão ligadas ao distanciamento da Área de Preservação Permanente (APP) e ao tipo de solo. No Mato Grosso do Sul a legislação Estadual impede a implantação de confinamentos em áreas de cascalho, lajedo e rocha. A meu ver essas áreas são muito boas para se montar um confinamento, pois são áreas com piso pouco permeável, forma menos barro, mais fácil recolher o esterco e efluentes.
Nos outros Estados o confinamento não pode ser implantado em áreas com solos encharcados, com lençol freático superficial e deve-se respeitar a distância da APP. Em alguns Estados é exigido apenas o respeito à APP e em outros Estados como Goiás e Mato Grosso é necessário respeitar uma distância além da APP, sendo que em Goiás é de 200 m distante da APP e no Mato Grosso 300 m distante da APP.
APP é a Área de Preservação Permanente e refere-se a uma faixa de terra na beira dos cursos d’água, das nascentes e lagos, onde não se deve mexer na vegetação. Caso essa vegetação já tenha sido desmatada, deve-se recompor a vegetação. O objetivo da APP é evitar o assoreamento. O respeito à APP é o principal tópico da legislação que envolve a instalação de confinamentos e outras atividades agrícolas ou agroindustriais.
8. Qual a diferença entre a logística do confinamento nos anos 80 e a logística de hoje?
Nos anos 80 tínhamos poucas alternativas de manter o peso do gado no período da seca/frio, de restrição alimentar, e predominava a produção do boi gordo no final do período das águas. Antigamente a oferta de boi gordo era baseada somente em pastagens e havia poucos recursos para proporcionar engorda no período seco/frio, assim a oferta de gado era muito concentrada no primeiro semestre e isso fazia com que se tivesse um diferencial de preço muito alto entre o final do período das águas e o final do período de inverno. Então os confinamentos surgiram para explorar esse diferencial de preço, de modo a poder vender mais caro no segundo semestre.
Foram surgindo alternativas de manter o gado com peso no período crítico, onde no Sul a dificuldade é principalmente o frio e no Centro Oeste o período seco. Exemplificando algumas destas alternativas, no Centro Oeste, principalmente, iniciaram o uso de nitrogenados, onde se conseguia até um pequeno ganho de peso alimentando o boi com capim seco e suplemento nitrogenado (uréia, sal proteinado). No sul do país cresceu o uso das pastagens de inverno (aveia, azevém) permitindo o crescimento e engorda de gado durante o período frio. Além disso, surgiram os semi-confinamentos, principalmente, no Centro Oeste. Com isso, hoje o diferencial de preços não é mais tão grande (desde a safra até a entressafra) e o confinamento passou a ter a função estratégica de reduzir o ciclo de produção, por reduzir a idade ao abate, e aliviar as pastagens no período de menor suporte, por seca ou frio. O confinamento também proporciona melhor terminação, carcaça de gado mais jovem e com melhor acabamento e, portanto, de melhor qualidade.
Hoje o enfoque de confinamento é mais estratégico, visa aliviar as pastagens da fazenda durante o período seco/frio. O resultado econômico do confinamento depende muito do desempenho técnico, necessitando ter um ótimo ganho de peso, uma ótima conversão alimentar para produzir uma arroba de modo competitivo. Já, há 30 anos, o boi podia até perder um pouco de peso no confinamento que não teria tanto problema por que a diferença entre o preço da safra e o da entressafra era muito grande e o desempenho do animal não tinha tanta impacto econômico. Na verdade, naquela época, o confinamento tinha função de estocagem, para vender os bois no segundo semestre e, hoje, a realidade é diferente, o desempenho é determinante para a rentabilidade.
Resumindo, a logística do confinamento antigamente era explorar o diferencial de preços e, por isso, os confinamentos eram feitos no período de maio a outubro. Hoje diversos clientes nossos começam o confinamento em março e vão até dezembro, mostrando que há tendência de estender o período de confinamento.
9. O que um projeto de implantação de confinamento deve prever primordialmente?
Para montar um confinamento, hoje, a primeira coisa que se deve pensar é qual volumoso se pode produzir e balizar o tamanho do seu confinamento pela sua capacidade de produção deste volumoso, considerando uma situação em que não se pode trabalhar com dietas de alto grão. Esse é um dos pilares do projeto do confinamento.
Uma vantagem competitiva do Brasil na produção de carne é a capacidade de produzir o alimento volumoso a baixo custo. O preço do grão relativo ao preço da forragem varia muito e, em muitos anos, a dieta de alto grão se mostrou antieconômica. Além disso, há que se respeitar a logística da propriedade, ter um posicionamento estratégico e respeitar a questão ambiental.
10. Qual conselho daria para um produtor que quer iniciar um projeto de implantação de confinamento?
O confinamento tem que ser operado por um pecuarista que tenha perfil para essa atividade. Ao sair de um sistema de cria, recria e engorda para um confinamento tudo muda, o pecuarista vai ter que comprar mais insumos, vai precisar trabalhar com um nível de mecanização muito maior do que estava acostumado, vai precisar ter uma estrutura administrativa muito mais cuidadosa, por que quando se intensifica a produção os riscos aumentam. O pecuarista deve analisar se está preparado para comprar 10 ou até 15 vezes mais insumos que antes e verificar se conseguirá fazer isso direito, esse é o primeiro ponto.
É necessário analisar se o confinamento tem uma função estratégica dentro da propriedade, se vai ajudar a aliviar os pastos, melhorar a produtividade e permitir aumentar a escala de produção.
11. Percebemos a presença de barro em muitos confinamentos, o que chega a afetar o desempenho dos animais. Quais as estratégias para evitar a formação de barro nos confinamentos sem piso?
Isso deve ser planejado no projeto. A única forma de drenagem é o escoamento superficial, por isso, o terreno deve ter um declive que permita um bom escoamento e este declive deve ser de no mínimo 3%, orientado da linha de cocho para o fundo do piquete de confinamento. O escoamento superficial deve ser considerado, mesmo em solo arenoso que tem drenagem maior que o solo argiloso.
Se o problema já existir, podemos melhorar o ambiente recolhendo o esterco, pois o esterco misturado ao solo retém muita umidade, aumentando o barro. Esse esterco pode ser retirado a cada 60 dias de confinamento. Outra medida é formar um piso de terra mais elevado, amontando terra no meio do piquete de confinamento. Esse monte de terra não irá acumular água e o animal terá sempre um local seco para deitar e ruminar. Deve-se proporcionar 1,5 m2/animal, neste local. As raças zebuínas deitam menos no barro que as raças de origem européia.